domingo, 16 de dezembro de 2012

Desencontros e Encontros

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Minha mãe tinha por costume rezar comigo ao me colocar para dormir e, em muitos momentos, eu adormecia antes do término. Um dia, ao me falar para eu não me esquecer de rezar, respondi a ela: “Não vou rezar mais, de nada adianta”. Foi o momento em que deixei de lado um possível contato com “o sagrado”. Era bem menino, minha mãe sempre respeitou as escolhas de seus filhos e, embora não religiosa no sentido de praticante, até hoje desconheço alguém que tenha tido uma fé tão viva.

Há cerca de 30 anos minha vida mudou completamente. Relembrando, consigo ver com satisfação o que na época, para mim, era apenas uma história de frustração. Havia uma única pessoa que realmente eu chamava de amigo; conhecidos, eram vários. Este meu amigo sempre foi um cara que, à maneira dele acreditava em Deus. Eu, não acreditava em nada.
Eu e este amigo resolvemos nos aventurar, indo embora para os EUA em busca de uma melhora de vida. Quando fomos tentar o visto, o dele foi aprovado imediatamente; o meu, ficou para o dia seguinte e acabou sendo negado. Assim falando, friamente, não é possível retratar a minha frustração. Fiquei realmente muito chateado, extremamente irritado. Meus planos foram por água abaixo, me desencontrei com meu sonho, com o destino que tinha traçado, ficaria sozinho e, minha vida, que aparentava mediocridade, continuaria na mesmice.
Ao ter meu o visto negado, fiquei sem rumo, sem saber o que fazer, resolvi retomar meus estudos, pois não tinha concluído o segundo grau e fui fazer o curso de magistério. Lá encontrei a menina que se tornaria mais tarde minha esposa, a mãe de meus filhos, com quem convivo faz aproximadamente 29 anos. Eu era bancário e um colega insistentemente tentava me falar a respeito de um encontro, um que eu desprezava e que lá em meu leito na minha meninice rejeitei. Este colega era “coincidentemente” conhecido havia anos de minha futura esposa.
Palavras não me convenceriam a respeito deste encontro com um Deus que aparentemente desde minha infância havia me deixado à deriva. Não existiam letras capazes de cobrir as marcas. Se não fosse algo verdadeiro, real, jamais aceitaria o então que era inexistente para mim.
A história é longa mas, resumindo, encontrei com Aquele que nunca esteve longe de mim, quer seja ao lado daquele menino que o rejeitou, quer seja ao lado do jovem que aparentemente teve seus planos frustrados. Em meio a encontros e desencontros eu encontrei Deus, e ELE nunca, em tempo algum esteve a uma distância que fosse sequer difícil de alcançar.

Minha vida mudou, minha história mudou. Hoje o meu crer, a minha família e tudo o que sou e tenho se deve a alguns desencontros e ao REAL ENCONTRO.
“Porque eu bem sei os pensamentos que tenho a vosso respeito, diz o SENHOR; pensamentos de paz, e não de mal, para vos dar o fim que esperais.” Jer.29:11
Qual o sentido deste texto nesta época que celebramos o Natal e as festas de final de ano? O que tem a ver? TUDO! O sentido real do Natal é o verdadeiro encontro, o nascimento, o surgimento da Vida de Verdade, sem data e hora que possamos determinar. Ele ocorre na vida de milhares de pessoas ao redor deste mundo e nada se compara ao verdadeiro nascimento, ao novo nascimento que está à disposição daqueles que desejarem.

 Tony Sathler

domingo, 9 de dezembro de 2012

Minha grande família

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Há muitas lições que colhemos pela vida. Algumas, carregamos até o fim dos nossos dias, outras, creio que levaremos pela eternidade.

Estava tudo sob controle. Os preparativos haviam saído a tempo, de acordo com o planejado. A louça, cuidadosamente escolhida, ansiava por sair da cristaleira e compor, caprichosamente, a mesa tão merecida. Eu mesma não me continha e não cansava de me sentar no sofá aconchegante, admirando a cristaleira onde o jogo de jantar, recém- saído da caixa, jazia. Era grande a minha expectativa. Amo Natal, uma data que, para mim, tem gosto de aconchego com chuva fininha. A corrida para comprar os enfeites e presentes, a casa cheirando a tempero na véspera, o aroma dos assados saindo do forno, o doce especialmente escolhido para o dia, as roupas bonitas, a mesa harmoniosamente disposta, as feições radiantes durante a ceia, fazem meu coração transbordar de gratidão e alegria. Seria um Natal a cinco, mas, sem dúvida, seria um grande Natal.

Porém, a poucos dias da data, fui surpreendida pela visita de um casal, nos convidando para passarmos o Natal com algumas pessoas da Igreja que, por motivos adversos, não tinham para onde ir. Pelo tom da conversa, compreendi que eles gostariam que o encontro fosse realizado em nossa casa, devido ao espaço que possuíamos.

E eu ali, no sofá aconchegante, atentava para o discurso do casal à minha frente, sentado ao lado da cristaleira, onde o jogo de jantar jazia. Minha mente, pega de surpresa, divagava relutante entre suas palavras, a visão da louça bonita e a imagem do nosso Natal, cuidadosamente planejado, apenas para cinco. Foi quando, de repente, me ocorreu: “E porque não?” Então, eu disse que falaria com meu marido e depois confirmaríamos. À noite, ainda meio reticente, conversamos e ele aceitou o convite. Gostamos de receber pessoas e seria uma oportunidade para experimentarmos um Natal diferente.  Assim,  compramos a ideia, até que chegou o grande dia.

À noitinha, as pessoas foram chegando, meio deslocadas por nos conhecerem tão pouco, mas logo tratamos de fazê-las se sentirem bem. Juntos, preparamos a mesa. O jogo de porcelana para cinco, fora substituído por itens descartáveis, e a mesa foi sendo adornada com pratos simples que destoavam do nosso belo assado, das nozes, das frutas suculentas e das rubras cerejas. Demos início a um amigo secreto à base de CDs e chinelinhos, e depois de uma oração, ceamos. Fora uma noite de Natal inusitada, algo totalmente à parte do que havíamos planejado, que nos fez sair de nós mesmos em direção aos outros.

Pela manhã, nossos filhos acordaram com o cheirinho de um "café de Natal", preparado apenas para nossa família, com direito ao jogo novo de porcelana e algumas surpresinhas. As mesmas pessoas que passaram a noite conosco, voltaram para o almoço e ficamos até à tarde em comunhão.

Ainda trago as impressões do sentimento que me sobreveio, através do tempo, por acolhermos pessoas, praticamente estranhas, em uma data tão íntima. Parei para refletir no quanto tempo gastamos, ao longo do ano, com nossas famílias e quanto tempo teríamos ainda para desfrutarmos, juntos, de boas comemorações. Então, tive a sensação de que fizemos algo bom quando concordamos em recebê-los. Um gesto simples que poupou algumas pessoas de ficarem sozinhas, em uma data que dá margem a tantos sentimentos contraditórios, para os que não têm o aconchego de uma família.

Em especial, lembro-me de uma moça cujo sorriso e olhar de gratidão me marcaram profundamente. É algo que quero ter como um mimo na lembrança nesta noite de Natal, em que ela não estará aqui outra vez. Há oportunidades que são únicas, assim como era aquele sorriso. Não sei nada sobre sua história, mas, sua simplicidade colaborou para abrilhantar aquela comemoração tão singela quanto o menino Jesus na manjedoura que, pela sua singularidade, faz com que os artifícios consumistas engendrados pelos homens, tornem-se irrelevantes. E, naquela noite, certamente, aquela moça refletia a alegria de ter sido acolhida e não ter que passar o Natal com uma triste sensação, atestada pelos fogos, pelas luzinhas pisca-pisca e pelos burburinhos da noite, de que havia muita festa acontecendo apenas do lado de fora. 
E, falando ele ainda à multidão, eis que estavam fora sua mãe e seus irmãos, pretendendo falar-lhe. E disse-lhe alguém: Eis que estão ali fora tua mãe e teus irmãos, que querem falar-te. Ele, porém, respondendo, disse ao que lhe falara: Quem é minha mãe? E quem são meus irmãos? E, estendendo a sua mão para os seus discípulos, disse: Eis aqui minha mãe e meus irmãos; porque, qualquer que fizer a vontade de meu Pai que está nos céus, este é meu irmão, e irmã e mãe. (Mateus 12:46-50)
Ao final do dia nos despedimos. Eles nos abraçaram com gratidão, sem suspeitar que a pessoa mais grata naquele Natal, e que havia sido mais agraciada, era eu mesma.

Ira Borges


domingo, 2 de dezembro de 2012

Iluminado

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Um amigo apresenta uma dúvida levantada pelo seu interlocutor em um debate inter-religioso sobre determinadas passagens bíblicas, onde Jesus se apresenta perdoando pecados e curando pessoas. Para o interlocutor, tais feitos, o perdão e a cura, não eram efetivamente realizados por Jesus, mas apenas constatados por ele que, em sua capacidade sobre-humana de observação, poderia perceber quando alguém estava prestes a se emancipar, espiritualmente falando, das sequelas do passado.

É curiosa essa interpretação.

As pessoas estão dispostas a admitir que Jesus tinha um dom sobrenatural de perscrutar a intimidade da alma humana suficientemente forte para saber que uma pessoa estava na iminência de ser "iluminada", mas essas mesmas pessoas não estão preparadas para admitir que a transformação individual vem do próprio Jesus.
Isso ocorre, porque tal atitude implica em reconhecimento da insuficiência pessoal, da dependência de Jesus, da humilhação do ego, e isso contraria frontalmente a forma predominante como as pessoas desejam viver e se ver nos dias de hoje. E é nesse ponto justamente que o Cristianismo contraria a maioria absoluta das visões religiosas disponíveis no mercado.
Em outras religiões, o ser humano, com seu esforço pessoal será capaz de se aperfeiçoar até atingir um estado de perfeição, iluminação ou plenitude em sua existência. O poder vai de dentro para fora. No Cristianismo, este mesmo ser humano só pode se realizar a partir do reconhecimento de suas limitações e na sujeição total a Jesus, perdendo sua vida para ganhá-la. O poder vem de fora para dentro.

Mas, essa desconfiança sobre o poder de Jesus em perdoar os pecados é recorrente.
Certo dia Jesus passando ao lado de um paralítico diz a ele que seus pecados estavam perdoados. Os donos da religião e da filosofia da época sentem-se ofendidos com tamanha pretensão.
Naquela ocasião, o problema era porque somente Deus poderia perdoar pecados, e Jesus, para eles, não era Deus. Mas, Jesus, percebendo a dificuldade intelectual da parte deles, faz uma demonstração prática tornando evidente que não se tratava apenas de uma jogada de marketing, ou mera retórica. Assim, ele diz:

Ora, para que saibais que o Filho do Homem tem sobre a terra autoridade para perdoar pecados — disse ao paralítico:
Eu te mando: Levanta-te, toma o teu leito e vai para tua casa. Marcos 2:10 e 11
Desse modo, fica, portanto, descartada a hipótese de que a presença dele ali, no exato momento em a cura se dava, fosse mera coincidência. Tanto o perdão, como a cura, foram proporcionados objetivamente por ele.
Jesus demonstra assim sua autoridade para curar e perdoar pecados, não apenas para aqueles homens, mas também a nós, nos fazendo ver que essas coisas estão igualmente à nossa disposição não pelo nosso poder mas — felizmente — pelo poder que nele reside.

Hamilton Furtado
Adaptado do artigo originalmente postado em Outramente



quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Jesus, garoto propaganda

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Jesus – seja para quem diz que o adora, que o segue, seja para quem diz apenas que o admira – ao que parece realmente é “o cara”, o exemplo, o modelo, o referencial. Isso faz com que as pessoas gostem de colocar palavras em sua boca e usá-lo como avalista das mais variadas causas que aparecem por aí.

Dessa forma, vemos pessoas elaborando roteiros, idealizando historietas para apoiar o meio ambiente, as crianças abandonadas, os homossexuais, os sem-tetos, os religiosos de todos os tipos e, mais ainda, os não religiosos de todos os tipos. No final, Jesus é chamado a participar do roteiro para “recitar o slogan da campanha”, endossando aquela causa ou idéia como se a elaboração toda de fato tivesse saído da boca dele.

O problema deste expediente é que quando se analisa honestamente o que Jesus costumava falar para as pessoas que o assediavam, o que se nota é que suas palavras, via de regra, desconcertavam seus interlocutores. Jesus não falava o que desejavam ouvir, nem tinha o hábito de prestigiar o senso comum vigente. E temos vários exemplos dando mostra de que isso não ocorria só com os fariseus e hipócritas da época como se gosta de acreditar.

A mulher siro-fenícia, ao se aproximar de Jesus teve que, antes de ser atendida, ouvir algumas colocações que fariam alguns sensíveis ouvidos politicamente-corretos de hoje imediatamente virarem as costas indignados com a "falta de sensibilidade de Jesus", interpretando suas palavras como discriminatórias, até mesmo esnobes ou racistas (Marcos 7.26). O jovem rico, se aproximou de Jesus confiantemente, certo de que estava fazendo tudo conforme os protocolos exigidos na ocasião, o que significava observar a lei rigorosamente. Jesus propôs a ele um desafio pessoal que estava além das expectativas sociais daquele contexto: vender tudo. A lei, por si mesma, nem obrigava alguém a vender tudo. (Lucas 18.18)

Esse tipo de situação ocorreu inclusive com os discípulos, as pessoas que conviveram mais próximo de Jesus nesta terra e que teoricamente eram as que mais o conheciam. Quando Jesus disse que teria que ser levado e morto, Pedro, com sincera compaixão se adiantou para dizer não deixaria que algo tão cruel acontecesse. Pedro tinha acabado de dar uma bola dentro histórica, reconhecendo Jesus como filho do Deus vivo, mesmo assim, Jesus repreendeu a ignorância do discípulo, e ainda o chamou de satanás. Quantos suportariam ouvir isso de alguém que se admira? (Mateus 16.22)

Em outro episódio, alguns discípulos, bem ao estilo “humanista” dos tempos atuais, acharam que ficariam bem na foto se propusesse a Jesus que em lugar de deixar que “desperdiçassem” perfume caro aos pés dele, vendessem o produto e usasse o dinheiro para fazer caridade. Jesus, ali, derrubou a mesa do senso comum. (Mateus 26.9)

Os exemplos nos evangelhos são muitos e merecem ser conferidos nas escrituras. É claro que Jesus falava o que falava porque ele de fato conhecia cada pessoa e sabia até onde deveria ir com cada um. Mas ele também sabia o que havia no íntimo deles, atrás da casca das aparências, do egoísmo das boas ações e das fraquezas morais ocultas por baixo da superfície.

Esta lição nos ensina que realmente não é bom negócio tentar colocar palavras na boca de Jesus, pressupondo que ele diria isso ou aquilo em determinada situação, porque isso simplesmente reflete as nossas expectativas pessoais em relação a Deus e que normalmente são muito mais limitadas, tendenciosas e egoístas do que aquelas que realmente Jesus veio propor. Em lugar de usar Jesus como garoto propaganda de nossas agendas pessoais, seria bom tentarmos conhecer melhor o que realmente ele disse e a partir daí, pautarmos nossas opiniões e escolhas.


Hamilton Furtado

Publicado originalmente em Outramente

sábado, 13 de outubro de 2012

Reis e Rainhas

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Razão para Crer abre espaço pela primeira vez para uma postagem um tanto diferente, para apresentar o músico Eddie Kirkland. Embora tenha lançado recentemente seu terceiro disco, o músico de Atlanta, EUA, talvez  ainda não seja um dos nomes mais conhecidos no cenário musical cristão, mas certamente não por conta da qualidade do seu trabalho, marcado por composições com muita personalidade musical e conteúdo.

 Temos a satisfação em divulgar a música título do seu lançamento mais recente, "Kings and Queens", inspirada, segundo o autor, na experiência de caminhar com amigos próximos em momentos de dificuldades na vida. Com direito a uma tradução exclusiva para os leitores do Razão para Crer.


Reis e Rainhas
Eddie Kirkland


Bem, o conto-de-fadas que ela sonhou
Teminou em um lar desfeito
E com as crianças apertadas no banco de trás
Ela largou tudo o que conhecia
Enquanto o carro atravessava a divisa do estado
E o radio ficava sem som
Ela chorou alto para Jesus
E ele respondeu com uma coroa

As riquezas encontradas no céu
São coroadas sobre os mansos
Todas as crianças, ladrões e mendigos
Estão acima dos reis e rainhas
O mistério do Reino é que tudo é ao contrário
As mãos que têm o tesouro
São as que vivem para servir
Os heróis do céu são os últimos e os menores da terra

Agora as palmas dele estavam úmidas e trêmulas
Quando ele de pé dizia seu nome
E o conto de filhos e filhas
Ele descartou pelo caminho
Todos os rostos naquele círculo
Todos eles encorajavam e se juntavam
Conforme ele andava para resgatar seu símbolo
Ele alcançou uma coroa

Em um dia como outro qualquer
Em um baldio fora da cidade
Vozes furiosas reunidas
Você poderia ouvi-las há milhas de distância
Eles riam e cuspiam nele
Conforme os pregos eram batidos
Enquanto sua cabeça pendia e ele surssurrava
O céu respondia com uma coroa

As riquezas encontradas no céu
São colocadas sobre os mansos
Todas as crianças, ladrões e
Estão acima dos reis e rainhas
O mistério do Reino é que tudo é ao contrário
As mãos que têm o tesouro
São as que vivem para servir
Todos os quebrados e inferiores
Os esquecidos serão os
Os heróis do céu são os últimos e os menores da terra

 

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Quanto aos que nos ferem...

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"Tem misericórdia de mim, ó Senhor, porque estou angustiado. Consumidos estão de tristeza os meus olhos, a minha alma, e o meu ventre." (Sl 31:9)

O caminho para casa era longo. Eu ansiava por chegar, cair de joelhos na sala e chorar aos pés do Senhor, transbordando a minha dor. Eu ainda conhecia muito pouco da Bíblia para entender como Deus age quando somos feridos e encontrar consolo. Durante muito tempo, caminhei a passos trôpegos, entorpecida pelo sofrimento, até compreender que Ele se importa com os oprimidos.
“Pela opressão dos pobres, pelo gemido dos necessitados me levantarei agora, diz o Senhor; porei a salvo aquele para quem eles assopram.” (Sl 12:5)
Você sabe do que eu estou falando, não importa há quanto tempo você é cristão, vez ou outra, você topará com um Demas, ou um latoeiro, pelo caminho. Aquele tipo de pessoa que fará de tudo para se opor a você, puxar seu tapete, te desprezar, te humilhar, te desmoralizar, te rejeitar, te ridicularizar, te difamar, te ignorar, te fazer sentir inadequado, fazendo questão de demonstrar que não gosta de você, e não fazendo questão de ter você por perto. Um tratamento cruel, explícito ou velado, que na maioria das vezes vem de pessoas que poderiam te amar, como Jesus, sem hipocrisia e sem favoritismos. Mas, por algum motivo, escolhem te machucar, deixando um rastro profundo de dor emocional na alma, que é uma das mais difíceis de suportar e de ser superada.
“Pois não era um inimigo que me afrontava; então eu o teria suportado; nem era o que me odiava que se engrandecia contra mim, porque dele me teria escondido. Mas eras tu, homem meu igual, meu guia e meu íntimo amigo. Consultávamos juntos suavemente, e andávamos em companhia na casa de Deus.” (Sl 55:12-14)  
Durante aqueles momentos de inconformismo, entre lágrimas, no tapete da sala, me veio à mente a história de José, e percebi que a resposta de José a seus irmãos, era a que Deus me requeria: Que eu não reagisse, nem me defendesse, que ficasse inerte ante aquelas situações de injustiça. Sempre pensei ser fácil perdoar os que nos ferem quando estamos na condição de Governador do Egito. Mas, e durante os anos de cativeiro? E durante aqueles dias intermináveis de abandono e desonra? Como lidar com a crueza da dor? E enquanto seus opressores cantam e dançam à sua frente, em uma posição privilegiada, e a sua humilhação é como vinagre sobre a ferida? Nessas horas, é essencial termos uma visão precisa de como Deus age em relação aos que nos ferem, para não desfalecermos.
“Ao aflito livra da sua aflição, e na opressão se revela aos seus ouvidos.” (Jó36:15)
Deus não folga com a injustiça, Ele não é um pai tirano que assiste impassível enquanto seus filhos são afligidos. Ele ouve a voz dos oprimidos, estende Sua mão compassiva e se volta contra os opressores, que sua indignação suscitam. O maior consolo quando somos molestados, é descansar na certeza de que não estamos sós, Deus vê e toma para Si as nossas dores, Ele nos acolhe. Ele é maior do que os que nos aborrecem sem causa, e esses não prevalecerão.
“O Senhor faz justiça e juízo a todos os oprimidos.” (Sl 103:6)
Paulo nos aconselha a, se possível, ter paz com todos, mas, raramente aqueles que nos causam males nos dão abertura para o entendimento. Geralmente, o ofensor é a parte mais fraca do conflito e tem dificuldades em se retratar. Mesmo assim, precisamos lidar com a questão individualmente e a dor não deve ser ignorada. O imperativo: “Você tem que perdoar”, se torna cruel e é inoportuno mediante o sofrimento; ficamos confusos, desorientados e podemos cair em autocomiseração que resultará em atitudes destrutivas. A ferida precisa ser tratada. Davi não a escondia, ele falava com Deus abertamente sobre seus problemas pessoais, assim como, sobre as perseguições que sofria. Ele fortalecia a sua fé, afirmando constantemente sua confiança na intervenção de Deus.
“Tem misericórdia de mim, ó Deus, porque o homem procura devorar-me; pelejando todo dia, me oprime”. (Sl 56:1)
Deus nos incentiva a alçar a voz e rasgar nosso coração diante Dele para sermos confortados. Ele compreende e respeita a nossa dor. A maioria dos Salmos fala por nós e a nós e nos convida a nos expressar sem reservas, nos mostrando como devemos agir, de modo a agradar a Deus, seguindo o exemplo dos que passaram pelo vale da humilhação sem indícios de vingança, com sabedoria. Cada um arcará com as consequências de seus atos, não importa quanto tempo demore, a disciplina de Deus será aplicada visando restauração.
 
Voltar nosso olhar para o exemplo da vida de cristãos experimentados e para os incomparáveis sofrimentos de Cristo, nos faz desviar a atenção de nós mesmos, e nos leva a ponderar acerca da nossa postura diante das situações de injustiça. Depositando nossa confiança na intervenção de Deus, abrimos caminho para que Ele aja a nosso favor, ficando livres do encargo de agir pelas próprias mãos, e do controle do oponente sobre nossas emoções.
Temos um manancial de águas vivas, um reservatório de amor infinito junto ao Trono, disponível para suprir nossas necessidades emocionais, que nos ajuda a suplantar a dor e nos capacita a perdoar aos nossos opressores, assim como Jesus perdoou. Saber que estamos agindo em obediência a um Deus que julga nossa causa e nos ampara, nos permite avançar, como José, rumo aos propósitos de Deus para as nossas vidas, firmes e inabaláveis, em um mundo decaído, onde relacionamentos oscilam e carecem de amor.
“... pois também Cristo padeceu por nós, deixando-nos o exemplo, para que sigais as suas pisadas. O qual não cometeu pecado, nem na sua boca se achou engano. O qual, quando o injuriavam, não injuriava, e quando padecia não ameaçava, mas entregava-se àquele que julga justamente;” (1 Pe 2:21-23)

Ira Borges

 

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

O limite do esforço humano

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Para quase tudo na vida, o esforço é  um ingrediente imprescindível que nos traz a vitória, o sucesso. A palavra esforço, no dicionário, entre outras coisas significa tornar-se forte; animar-se; empregar todos os meios; empenhar-se. Porém na contramão desta verdade em várias vertentes da vida, no que tange à salvação a conversa é diametralmente contrária.

A Bíblia explica, desde o início, que a salvação não depende do nosso esforço e indica o rumo correto a ser seguido. Todo cristão que conhece um pouco da Bíblia, sabe que somente por meio do sacrifício de Cristo é possível se reconciliar com Deus Pai, que não existe outro caminho.

Como isso foi mostrado no início? Após voluntariamente o homem desobedecer a uma clara ordem dada por Deus, isto ocorreu:
“Então foram abertos os olhos de ambos, e conheceram que estavam nus; e coseram folhas de figueira, e fizeram para si aventais”. Gên. 3:7 

O homem e a mulher se envergonharam e quando se viram nus, buscaram cobrir-se pois Deus os visitava todo dia. O homem sentiu a necessidade de fazer algo para encobrir a vergonha que sentia e, por seu esforço, produziu sua própria cobertura. Deus viu, questionou e mostrou que a cobertura que o homem tentou produzir não era a solução. Homem e mulher haviam sido previamente avisados que teriam sérias consequências como fruto da desobediência. Deus amaldiçoou a serpente, a terra e penalizou o homem e a mulher, porém não deixou de apontar o caminho de volta a ser tomado:

“E fez o SENHOR Deus a Adão e à sua mulher túnicas de peles, e os vestiu.” Gên. 3:21

Deus não os rejeitou nem expulsou do Jardim sem o alento de um plano remidor, que já estava concebido, preparando uma via de retorno. Um primeiro sacrifício foi feito e foi providenciado pelo próprio Deus, indicando o caminho, assim como Ele mesmo proveu o último, em Jesus, que sendo despido no Calvário nos cobre eternamente.
Não cabe ao homem se esforçar para merecer a salvação, mas cabe a ele render-se à obra consumada no Calvário. O esforço é algo louvável, através do qual produzimos muitos frutos mas, nem ontem, nem hoje e nem amanhã produzirá o que coube somente ao esforço de Cristo proporcionar: o retorno ao lar. 

Tony Sathler

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Deus, primeiro!

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" Não, tu não me amas "...

É isso o que muitos de nós ouviríamos, se fôssemos indagados, como a Pedro, pelo conhecedor dos corações. 

–Mas, Senhor, eu sei que Te amo!
"Não, você não me ama! Não de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu entendimento, e de todas as tuas forças".

Sempre há um dia de Jó na vida de todo cristão...
Somos combatidos diariamente pelos padrões pecaminosos do velho homem, por problemas pessoais, pelas tentações, pelo inimigo e pelo mundo. Não há como escapar ilesos da roda viva cotidiana que visa nos enredar e nos destruir. Somos novas criaturas, mas não estamos imunes às adversidades desta vida. Basta a aflição bater à nossa porta para nos conscientizarmos da nossa fragilidade. Os obstáculos são incontáveis, temos que investir uma força quase sobre humana para resistir. E Deus sabe que sofremos. 

Não conhecemos o que vai a fundo na vida de cada um, o que vemos é a superfície, apresentamos sempre o nosso melhor, mas Deus sabe das nossas angústias. Ele conhece a dor daqueles que sofrem com as consequências das suas escolhas, daqueles que lutam com o senso de inadequação, com a solidão, com casamentos desarmoniosos, com a criação de filhos difíceis, com enfermidades, com insucesso profissional, com contas demais para pagar e dinheiro de menos; e, Ele sabe que sucumbiríamos se Ele não nos deixasse o primeiro mandamento.
Amarás, pois, ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu entendimento, e de todas as tuas forças; este é o primeiro mandamento.
Marcos 12:30

"Amarás, pois, ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu entendimento, e de todas as tuas forças; este é o primeiro mandamento". (Marcos 12:20)
Ele sabia que teríamos limitações físicas, emocionais e espirituais; e que embora muitas coisas cooperem para a nossa felicidade temporal, nada satisfaria o anseio da nossa alma por descanso e paz. Ele sabia que se não tivéssemos um relacionamento que priorizasse a Sua pessoa, não teríamos forças para lutar e nos perderíamos. Somos fracos, somos pó, nosso velho homem nos martiriza, as pessoas ao nosso redor são imperfeitas, pecam contra nós, nossas responsabilidades exigem mais do que podemos oferecer, os relacionamentos são frágeis e muitos são usados pelo inimigo para nos abater. Quase não podemos lidar com todas as circunstâncias e conosco, sem pensar em desistir. De onde extrairemos forças?
"Tu me amas?"
Talvez dias piores ainda nos surpreendam. Os prazeres desta vida são efêmeros. Conforto, bem estar e situações que hoje nos satisfazem, e até nos distraem, fazendo parecer que tudo está espiritualmente bem, logo não mais nos saciarão. Chegará o tempo em que enfrentaremos alguns insucessos pessoais, falta de vigor físico, perda de entes queridos. Muitos veremos dias em que o cântaro se despedaçará junto à fonte, e qual será a razão do nosso contentamento?
"Amarás, pois, ao Senhor Teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu entendimento, e de todas as tuas forças..."
"Tu me amas?"
Não, Senhor, eu não Te amo! Eu não tenho Te priorizado, não tenho gastado tempo a Teus pés, não tenho me deleitado em Ti. Tu não tens sido a principal das minhas afeições, Tu não dominas os meus pensamentos, os meus sentimentos, os meus desejos, a minha admiração. Situações e pessoas têm se avultado, tomado o Teu lugar e fisgado o meu coração.

Qual é a fonte da nossa felicidade?

Lembra-te do Teu Criador nos dias da Tua mocidade, nos dias da Tua  maturidade e por todos os teus dias, antes que a tristeza e a frustração se instalem dentro de ti e venhas a dizer insatisfeito: - Não tive, na minha vida, contentamento.

Ira Borges

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

O Evangelho Inclusivo

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O Evangelho é inclusivo
Volta e meia aparece uma nova terminologia e a mesma vira moda, torna-se a bola da vez. Um termo interessante que a algum tempo começou a ser bastante propagado é o “evangelho inclusivo”. A verdade é que o Evangelho nunca foi exclusivo e muito menos excludente.

Jesus diz: “Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei” Mt. 11:28
Um texto bem conhecido até por aqueles que não tem por costume ler a bíblia diz:
“Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna...” Jo. 3:16

Para quem entende que a Bíblia é o guia de fé e pratica do cristão, é necessário também entender que o fato de ser incluido não é sinonimo de não precisar se adequar a princípios, que em muitos momentos podem não estar em concordância com o que gosto, com o que quero, com o que pratico.

O Evangelho inclusivo é bem mais abrangente do que a vertente que se propaga por modismo. Ele inclui não esta ou aquela “categoria” de pessoas, mas a TODOS. Quem, porém, pensa que ao ser incluido continuará da mesma forma e não será desafiado a mudanças, está “redondamente enganado”. É necessario compreender que, ao ser incluido no Reino de DEUS por intermédio de Cristo e sua obra vicária, somos desafiados a seguir a Cristo, que entre algumas coisas diz: 
“Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, e tome cada dia a sua cruz, e siga-me”.  Lc. 9:33

O verdadeiro Evangelho, que sempre foi inclusivo, não é “mamão com açúcar”, devemos ir a Ele como estamos, mas jamais continuaremos os mesmos à medida que, dia a dia, formos sendo trabalhados por ELE, ao aprendermos, decidindo e aceitando as mudanças que nem sempre nos agradarão, mas que se fazem necessárias. Caso contrário, CERTAMENTE não será o evangelho que nos chamou à INCLUSÃO que se adequará as nossas vontades e desejos.

As Boas Novas falam de um Amor que não é novo, mas eterno e o amor não exclui as lutas internas que travamos, o amor é inclusive sacrificial, sacrificamos desejos, paixãos, praticas, é o ego deixando de reinar. A escolha é pessoal e intransferível. 
 
Tony Sathler


terça-feira, 31 de julho de 2012

A Verdadeira Religião

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A religião pura e imaculada para com Deus, o Pai, é esta: Visitar os órfãos e as viúvas nas suas tribulações, e guardar-se da corrupção do mundo. (Tiago 1:27)
 
Procuro um lugar onde os burburinhos da noite agitada desistam de competir com o clamor da minha alma e saio para contemplar o incrível céu estrelado. Sinto falta de ficar a sós com Deus. Me aconchego sobre um banco de cimento, ainda aquecido pelo calor do dia, e volto meu olhar para o firmamento. Embora tênues, como um longo e fino véu opaco, as nuvens ocultam as estrelas, deixando-me frustrada.

Um turbilhão de emoções agita o meu espírito, cheguei a um ponto onde nada mais importa. Deus me completa, meu mundo tornara-se irrelevante para mim, a vaidade migrara, de nada sinto falta, não desejo voltar, há muito que se fazer por aqui, os dias não foram suficientes, me sinto impotente e paralisada diante de tanta aridez espiritual e física. Gostaria de me fundir na negritude celeste e adquirir poderes sobrenaturais para fazer mais.

Os gritos de desespero, estampados em cada rosto, atingem o ponto nevrálgico da minha alma e me movem em grande compaixão. Meu coração fora dilacerado por cada dardo inflamado de dor, de miséria, de descaso, de abandono, de infâncias perdidas, de sonhos irrealizáveis. Tudo o que eu queria ter, é mais que uma vida e me fazer em mil pedaços para poder servir. Choro por esse povo, e me recuso a ser consolada.

Entro, na esperança de que o sono me transporte para outros mundos, mas não consigo dormir, sou impelida a retornar. Volto para o banco, quando percebo estupefata que o céu se abrira e ficara completamente límpido. Posso contemplar, como nunca, uma gama infinita de estrelas coloridas de tamanhos variados, as constelações claramente nítidas na escuridão e a via láctea que se espalha, num sopro, como poeira. É maravilhoso. Meu coração adora.


Eu apenas posso observá-las, mas Deus as conhece, a cada uma Ele chama pelo próprio nome e sabe de sua constituição. Aqui, eu apenas posso assistir aos ribeirinhos, por alguns dias, mas Deus os conhece, a cada um Ele chama pelo próprio nome, Ele sabe de cada dor e de cada aflição, deu Seu único Filho por amor a eles, não há nada mais que eu possa fazer, a não ser continuar buscando para transmitir Sua mensagem com excelência. Eu não sou ninguém, mas é de pessoas de fé que esse povo necessita e dos dons e talentos que lhes serão intrínsecos.


O único consolo que encontro em meio a tanto sofrimento, é saber que o evangelho nivela a todos, e cada um receberá de Deus o seu galardão. Um dia, Ele mesmo enxugará cada lágrima, “bem aventurados os que choram porque serão consolados”, e a justiça será executada sobre homens omissos que tiveram oportunidade de servir, mas não serviram, seja por ganância, por comodismo ou pela própria dureza de coração. A Parábola do rico e de Lázaro há de se repetir por muitas e muitas vezes na vida de pessoas que podiam fazer o bem e não fizeram, que podiam doar um pouco de si e dos seus talentos para aliviar a dor dos que sofrem e não doaram, daqueles que tinham muito para dividir com os necessitados mas para si e para os seus retiveram, daqueles para quem Jesus veio mas não se comoveram. Não lhe deram de comer, não lhe deram de beber, não lhe deram de vestir, não o visitaram, nem o receberam.

Penso na futilidade das nossas vidas, de todos nós, que vivemos do lado de cá; no nosso materialismo, nas nossas vaidades, no nosso viver para nós mesmos, e em tudo o que é supérfluo num mundo dominado por necessidades criadas, das quais nos tornamos escravos e vivemos para suprir; enquanto Jesus que deu Sua vida por todos, morreu "para que os que vivem não vivam mais para si, mas para Aquele que por eles morreu e ressuscitou".


Penso no investimento que cada um de nós, cristãos, fazemos em missões anualmente: Um real e cinquenta centavos, então eu me pergunto: - Até quando, Senhor, até quando? Até quando tamparemos nossos ouvidos para não ouvir os gemidos e até quando endurecemos os nossos corações para não nos comover mediante a dor? Até quando alimentaremos nossa alma de belos discursos, enquanto, dando de ombros, encolhemos as nossas mãos? Até quando viveremos cercados pelas necessidades que se avultam, enquanto aliviamos nossas consciências, nos convencendo que de não temos culpa, pois não tivemos nisso participação?

Quando deixaremos de viver para o nosso deleite e viveremos uma vida que vale a pena ser vivida, para sua glorificação? Quando chegará o dia em que todo aquele que segue ao Mestre cumprirá a missão de salgar o mundo, praticando o Seu amor?

“Se abrires a tua alma ao faminto e fartares a alma aflita, então, a tua luz nascerá nas trevas, e a tua escuridão será como o meio-dia. O Senhor te guiará continuamente, fartará a tua alma até em lugares áridos e fortificará os teus ossos; serás como um jardim regado e como um manancial cujas águas jamais faltam”. (Isaias 58:10-11)

Ira Borges

domingo, 22 de julho de 2012

Carregando a cruz

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Quem nunca viu uma cruz? A pergunta parece ser desnecessária, afinal estamos em um dos maiores países “cristãos” do mundo. Obviamente qualquer pessoa que enxergar terá visto não uma, mas centenas delas, seguramente, afinal, esse é o símbolo do Cristianismo.
Durante séculos a igreja oficial da história adotou a cruz como seu símbolo de um modo tão eficiente que hoje em dia poucos associam a fé cristã a outro símbolo usado pelos cristãos no princípio, o peixe. O Cristianismo fincou seu logotipo de um jeito que diretor de marketing nenhum poderia colocar defeito.

Hoje a cruz se encontra em milhares de cidades, vilas e aldeias espalhadas pelo mundo. Frequentemente está no topo e é a primeira coisa que se vê de longe. Nos cemitérios também é bastante fácil de achá-la. Está ali fora, na pedra, ou dentro, sobre a madeira do caixão, como que assinalando para esta vida e para além dela a suposta condição daquele ali sepultado. Não é à toa que para a maioria das pessoas a ideia de cruz venha acompanhada de um inconfundível cheiro de vela. Mesmo no mundo não cristão a cruz é uma marca de tremenda intensidade. Encontrar uma cruz em certos países, para um cristão, é como voltar para casa depois de atravessar o mundo.

Jesus, muito antes de ser crucificado, usava a cruz como ilustração em suas pregações. Ele disse Se alguém quiser vir após mim, negue-se a si mesmo, e tome a sua cruz, e siga-me (1). Quando Jesus disse isto ele sabia que na mente das pessoas a cruz significava morte. Um tipo de morte invariavelmente lenta e muito sofrida, além de pública e vergonhosa. Jesus estava dizendo ali que segui-lo é negar-se a si mesmo, é renunciar-se a ponto de morrer. Em uma outra passagem temos ainda a expressão a cada dia(2), enfatizando que isso não era apenas um ato esporádico, mas sim a norma da vida de alguém que segue a Jesus.

Quando finalmente Jesus foi levantado em uma cruz, para ser morto à vista de todos, ele estava dando o exemplo final de uma vida de inteira renúncia a si mesmo(3). Jesus permitiu que a vontade de Deus se cumprisse em sua vida até o ponto de ser miseravelmente morto de um modo vergonhoso aos olhos dos homens. A vergonha da cruz era tão grande que hoje é difícil dimensioná-la. Para se ter uma idéia, a cultura islâmica, mesmo não tendo Jesus como Salvador, é incapaz de admitir sua crucificação, tamanha a humilhação de alguém da cruz.

Mesmo assim as cruzes continuam cada vez mais populares como adereços, nos pescoços, nas orelhas ou até nos umbigos da massa. É artigo da moda, que todo mundo carrega e continua preservando na tradição ou na arquitetura, embora cada vez menos alguém saiba o porquê.
Infelizmente, ao longo da história o exemplo de Jesus não foi tão copiado quanto o desenho da cruz tem sido. Nos dias de hoje a maioria das pessoas vive em busca de um estilo de vida cada vez mais egoísta, resistente a contrariedades e conflitos, cada vez mais centralizado na realização dos desejos e das vaidades individuais. Qualquer pessoa pensa várias vezes antes de ajudar alguém ou ceder em qualquer pequena discussão. Os cristãos são gratos pelo sacrifício de Jesus na cruz, mas têm se esquecido metodicamente do quanto levar a cruz é um princípio básico do Cristianismo.

Mas, é indispensável dizer que a cruz, no Cristianismo, está longe de significar derrota. Jesus transformou o significado mórbido da cruz em um marco da celebração da verdadeira vida. Paulo escreveu:
...e, achado na forma de homem, humilhou-se a si mesmo, sendo obediente até à morte e morte de cruz. Pelo que também Deus o exaltou soberanamente e lhe deu um nome que é sobre todo o nome...(4) 
O sacrifício de Jesus foi tão perfeito que a própria morte não o pôde reter(5) e por isso Jesus ressuscitou(6). Jesus ressuscitou! E é por isso que faz sentido em se falar de cruz(7). É por isso que faz sentido carregar uma cruz. E nisto deveria crer todo aquele que ostenta “sua” cruz.

Hamilton Furtado



terça-feira, 10 de julho de 2012

Saudades...

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Como é difícil sentir saudades, saudades de um tempo bom, de pessoas queridas distantes ou daqueles que não voltarão mais. Como é difícil sentir saudades, e prosseguir desatando os laços que nos uniam aos que se foram cujas impressões ficarão em nossas almas para sempre. Como é difícil sentir saudades, seja causada por recordações singelas ou por separações difíceis, contrárias ao nosso querer.
Como é difícil sentir saudades, esse sentimento de perda e desamparo que, contrariando o bom senso e a razão, arranca um pedaço de você. Como é difícil sentir saudades, nem mesmo o maior dos apóstolos pôde evitar angustiar-se, pela dor da ausência dos que ele queria bem.
“Porque Deus me é testemunha das saudades que de todos vós tenho, em entranhável afeição de Jesus Cristo.” (Filipenses 1:8)
Quando penso em saudades, o relacionamento que havia entre Jesus e os Seus discípulos é a melhor ilustração que vem à minha mente. Eles viveram ao lado de Jesus de forma genuína. Foram priorizados e chamados de amigos. Tinham uma convivência perfeita, se expressavam de maneira aberta e aceitavam ouvir as palavras certas, nas horas certas, de exortação e encorajamento. Desfrutaram do privilégio de, por três anos, aprender com Ele. Jesus fez questão da companhia deles para andar junto, pescar junto, viajar junto, orar junto, comer junto, descansar junto, trabalhar junto, ter momentos de íntima comunhão; até que um dia, foram separados abruptamente...
“... tempo de abraçar e tempo de afastar-se de abraçar.” (Eclesiastes 3:5b)
Os discípulos estavam profundamente apegados a Jesus quando a hora da separação chegou. Eles ficaram completamente abalados com a ideia da partida do melhor amigo e, dali por diante, teriam que viver de esperança.
“...Ora a esperança que se vê não é esperança; porque o que alguém vê como o esperará?” (Romanos 8:24b)
Não mais estariam com Jesus fisicamente, mas Ele lhes prometeu preparar um lugar junto ao Pai. E, antevendo a dor lancinante que a separação causaria, Jesus os confortou com a promessa de um Consolador.
“E eu rogarei ao Pai, e ele vos dará outro Consolador, para que fique convosco para sempre; O Espírito de verdade, que o mundo não pode receber, porque não o vê nem o conhece; mas vós o conheceis, porque habita convosco, e estará em vós.” (João 14:16-17)
Como é difícil sentir saudades, e ter que nos separar de pessoas às quais nos afeiçoamos, mas é assim que amenizamos o sofrimento em períodos de ausência, vislumbrando o tempo de abraçar outra vez. Os momentos de aflição não nos são indiferentes, mas as promessas de Deus são um alento para as nossas almas e nos inundam com a Sua paz. Não vivemos como os que não têm esperança e, como cristãos, gozamos do privilégio de sermos confortados pelo Espírito de Deus. É nesse porto que estamos ancorados, Ele não nos deixa naufragar no mar do abatimento. Sabemos que, um dia, voltaremos a conviver com aqueles que amamos, haverá a alegria do reencontro, ainda que seja na eternidade.

"Há perdas irreparáveis, pessoas insubstituíveis e amigos inesquecíveis."

Ira Borges