domingo, 16 de dezembro de 2012

Desencontros e Encontros

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Minha mãe tinha por costume rezar comigo ao me colocar para dormir e, em muitos momentos, eu adormecia antes do término. Um dia, ao me falar para eu não me esquecer de rezar, respondi a ela: “Não vou rezar mais, de nada adianta”. Foi o momento em que deixei de lado um possível contato com “o sagrado”. Era bem menino, minha mãe sempre respeitou as escolhas de seus filhos e, embora não religiosa no sentido de praticante, até hoje desconheço alguém que tenha tido uma fé tão viva.

Há cerca de 30 anos minha vida mudou completamente. Relembrando, consigo ver com satisfação o que na época, para mim, era apenas uma história de frustração. Havia uma única pessoa que realmente eu chamava de amigo; conhecidos, eram vários. Este meu amigo sempre foi um cara que, à maneira dele acreditava em Deus. Eu, não acreditava em nada.
Eu e este amigo resolvemos nos aventurar, indo embora para os EUA em busca de uma melhora de vida. Quando fomos tentar o visto, o dele foi aprovado imediatamente; o meu, ficou para o dia seguinte e acabou sendo negado. Assim falando, friamente, não é possível retratar a minha frustração. Fiquei realmente muito chateado, extremamente irritado. Meus planos foram por água abaixo, me desencontrei com meu sonho, com o destino que tinha traçado, ficaria sozinho e, minha vida, que aparentava mediocridade, continuaria na mesmice.
Ao ter meu o visto negado, fiquei sem rumo, sem saber o que fazer, resolvi retomar meus estudos, pois não tinha concluído o segundo grau e fui fazer o curso de magistério. Lá encontrei a menina que se tornaria mais tarde minha esposa, a mãe de meus filhos, com quem convivo faz aproximadamente 29 anos. Eu era bancário e um colega insistentemente tentava me falar a respeito de um encontro, um que eu desprezava e que lá em meu leito na minha meninice rejeitei. Este colega era “coincidentemente” conhecido havia anos de minha futura esposa.
Palavras não me convenceriam a respeito deste encontro com um Deus que aparentemente desde minha infância havia me deixado à deriva. Não existiam letras capazes de cobrir as marcas. Se não fosse algo verdadeiro, real, jamais aceitaria o então que era inexistente para mim.
A história é longa mas, resumindo, encontrei com Aquele que nunca esteve longe de mim, quer seja ao lado daquele menino que o rejeitou, quer seja ao lado do jovem que aparentemente teve seus planos frustrados. Em meio a encontros e desencontros eu encontrei Deus, e ELE nunca, em tempo algum esteve a uma distância que fosse sequer difícil de alcançar.

Minha vida mudou, minha história mudou. Hoje o meu crer, a minha família e tudo o que sou e tenho se deve a alguns desencontros e ao REAL ENCONTRO.
“Porque eu bem sei os pensamentos que tenho a vosso respeito, diz o SENHOR; pensamentos de paz, e não de mal, para vos dar o fim que esperais.” Jer.29:11
Qual o sentido deste texto nesta época que celebramos o Natal e as festas de final de ano? O que tem a ver? TUDO! O sentido real do Natal é o verdadeiro encontro, o nascimento, o surgimento da Vida de Verdade, sem data e hora que possamos determinar. Ele ocorre na vida de milhares de pessoas ao redor deste mundo e nada se compara ao verdadeiro nascimento, ao novo nascimento que está à disposição daqueles que desejarem.

 Tony Sathler

domingo, 9 de dezembro de 2012

Minha grande família

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Há muitas lições que colhemos pela vida. Algumas, carregamos até o fim dos nossos dias, outras, creio que levaremos pela eternidade.

Estava tudo sob controle. Os preparativos haviam saído a tempo, de acordo com o planejado. A louça, cuidadosamente escolhida, ansiava por sair da cristaleira e compor, caprichosamente, a mesa tão merecida. Eu mesma não me continha e não cansava de me sentar no sofá aconchegante, admirando a cristaleira onde o jogo de jantar, recém- saído da caixa, jazia. Era grande a minha expectativa. Amo Natal, uma data que, para mim, tem gosto de aconchego com chuva fininha. A corrida para comprar os enfeites e presentes, a casa cheirando a tempero na véspera, o aroma dos assados saindo do forno, o doce especialmente escolhido para o dia, as roupas bonitas, a mesa harmoniosamente disposta, as feições radiantes durante a ceia, fazem meu coração transbordar de gratidão e alegria. Seria um Natal a cinco, mas, sem dúvida, seria um grande Natal.

Porém, a poucos dias da data, fui surpreendida pela visita de um casal, nos convidando para passarmos o Natal com algumas pessoas da Igreja que, por motivos adversos, não tinham para onde ir. Pelo tom da conversa, compreendi que eles gostariam que o encontro fosse realizado em nossa casa, devido ao espaço que possuíamos.

E eu ali, no sofá aconchegante, atentava para o discurso do casal à minha frente, sentado ao lado da cristaleira, onde o jogo de jantar jazia. Minha mente, pega de surpresa, divagava relutante entre suas palavras, a visão da louça bonita e a imagem do nosso Natal, cuidadosamente planejado, apenas para cinco. Foi quando, de repente, me ocorreu: “E porque não?” Então, eu disse que falaria com meu marido e depois confirmaríamos. À noite, ainda meio reticente, conversamos e ele aceitou o convite. Gostamos de receber pessoas e seria uma oportunidade para experimentarmos um Natal diferente.  Assim,  compramos a ideia, até que chegou o grande dia.

À noitinha, as pessoas foram chegando, meio deslocadas por nos conhecerem tão pouco, mas logo tratamos de fazê-las se sentirem bem. Juntos, preparamos a mesa. O jogo de porcelana para cinco, fora substituído por itens descartáveis, e a mesa foi sendo adornada com pratos simples que destoavam do nosso belo assado, das nozes, das frutas suculentas e das rubras cerejas. Demos início a um amigo secreto à base de CDs e chinelinhos, e depois de uma oração, ceamos. Fora uma noite de Natal inusitada, algo totalmente à parte do que havíamos planejado, que nos fez sair de nós mesmos em direção aos outros.

Pela manhã, nossos filhos acordaram com o cheirinho de um "café de Natal", preparado apenas para nossa família, com direito ao jogo novo de porcelana e algumas surpresinhas. As mesmas pessoas que passaram a noite conosco, voltaram para o almoço e ficamos até à tarde em comunhão.

Ainda trago as impressões do sentimento que me sobreveio, através do tempo, por acolhermos pessoas, praticamente estranhas, em uma data tão íntima. Parei para refletir no quanto tempo gastamos, ao longo do ano, com nossas famílias e quanto tempo teríamos ainda para desfrutarmos, juntos, de boas comemorações. Então, tive a sensação de que fizemos algo bom quando concordamos em recebê-los. Um gesto simples que poupou algumas pessoas de ficarem sozinhas, em uma data que dá margem a tantos sentimentos contraditórios, para os que não têm o aconchego de uma família.

Em especial, lembro-me de uma moça cujo sorriso e olhar de gratidão me marcaram profundamente. É algo que quero ter como um mimo na lembrança nesta noite de Natal, em que ela não estará aqui outra vez. Há oportunidades que são únicas, assim como era aquele sorriso. Não sei nada sobre sua história, mas, sua simplicidade colaborou para abrilhantar aquela comemoração tão singela quanto o menino Jesus na manjedoura que, pela sua singularidade, faz com que os artifícios consumistas engendrados pelos homens, tornem-se irrelevantes. E, naquela noite, certamente, aquela moça refletia a alegria de ter sido acolhida e não ter que passar o Natal com uma triste sensação, atestada pelos fogos, pelas luzinhas pisca-pisca e pelos burburinhos da noite, de que havia muita festa acontecendo apenas do lado de fora. 
E, falando ele ainda à multidão, eis que estavam fora sua mãe e seus irmãos, pretendendo falar-lhe. E disse-lhe alguém: Eis que estão ali fora tua mãe e teus irmãos, que querem falar-te. Ele, porém, respondendo, disse ao que lhe falara: Quem é minha mãe? E quem são meus irmãos? E, estendendo a sua mão para os seus discípulos, disse: Eis aqui minha mãe e meus irmãos; porque, qualquer que fizer a vontade de meu Pai que está nos céus, este é meu irmão, e irmã e mãe. (Mateus 12:46-50)
Ao final do dia nos despedimos. Eles nos abraçaram com gratidão, sem suspeitar que a pessoa mais grata naquele Natal, e que havia sido mais agraciada, era eu mesma.

Ira Borges


domingo, 2 de dezembro de 2012

Iluminado

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Um amigo apresenta uma dúvida levantada pelo seu interlocutor em um debate inter-religioso sobre determinadas passagens bíblicas, onde Jesus se apresenta perdoando pecados e curando pessoas. Para o interlocutor, tais feitos, o perdão e a cura, não eram efetivamente realizados por Jesus, mas apenas constatados por ele que, em sua capacidade sobre-humana de observação, poderia perceber quando alguém estava prestes a se emancipar, espiritualmente falando, das sequelas do passado.

É curiosa essa interpretação.

As pessoas estão dispostas a admitir que Jesus tinha um dom sobrenatural de perscrutar a intimidade da alma humana suficientemente forte para saber que uma pessoa estava na iminência de ser "iluminada", mas essas mesmas pessoas não estão preparadas para admitir que a transformação individual vem do próprio Jesus.
Isso ocorre, porque tal atitude implica em reconhecimento da insuficiência pessoal, da dependência de Jesus, da humilhação do ego, e isso contraria frontalmente a forma predominante como as pessoas desejam viver e se ver nos dias de hoje. E é nesse ponto justamente que o Cristianismo contraria a maioria absoluta das visões religiosas disponíveis no mercado.
Em outras religiões, o ser humano, com seu esforço pessoal será capaz de se aperfeiçoar até atingir um estado de perfeição, iluminação ou plenitude em sua existência. O poder vai de dentro para fora. No Cristianismo, este mesmo ser humano só pode se realizar a partir do reconhecimento de suas limitações e na sujeição total a Jesus, perdendo sua vida para ganhá-la. O poder vem de fora para dentro.

Mas, essa desconfiança sobre o poder de Jesus em perdoar os pecados é recorrente.
Certo dia Jesus passando ao lado de um paralítico diz a ele que seus pecados estavam perdoados. Os donos da religião e da filosofia da época sentem-se ofendidos com tamanha pretensão.
Naquela ocasião, o problema era porque somente Deus poderia perdoar pecados, e Jesus, para eles, não era Deus. Mas, Jesus, percebendo a dificuldade intelectual da parte deles, faz uma demonstração prática tornando evidente que não se tratava apenas de uma jogada de marketing, ou mera retórica. Assim, ele diz:

Ora, para que saibais que o Filho do Homem tem sobre a terra autoridade para perdoar pecados — disse ao paralítico:
Eu te mando: Levanta-te, toma o teu leito e vai para tua casa. Marcos 2:10 e 11
Desse modo, fica, portanto, descartada a hipótese de que a presença dele ali, no exato momento em a cura se dava, fosse mera coincidência. Tanto o perdão, como a cura, foram proporcionados objetivamente por ele.
Jesus demonstra assim sua autoridade para curar e perdoar pecados, não apenas para aqueles homens, mas também a nós, nos fazendo ver que essas coisas estão igualmente à nossa disposição não pelo nosso poder mas — felizmente — pelo poder que nele reside.

Hamilton Furtado
Adaptado do artigo originalmente postado em Outramente